O Retrato da Comunidade

Há três anos, Felipe Samurai fez uma travessia. Deixou sua vida no interior para morar na cidade de Ilhabela, no litoral de São Paulo. “Estrangeiro” em terra distante, desde o início de sua chegada encantou-se pela comunidade do Morro dos Mineiros. Foram muitas as caminhadas por becos e escadarias, conversas, histórias e cheiro de café. Geralmente, quem vem à Ilhabela tem os olhos focados no mar e na natureza exuberante, mas a beleza que o olhar de Felipe buscou para esse projeto não está apenas na obviedade verde e azul.

O trabalho desenvolvido pelo fotógrafo em “O retrato da comunidade” revela uma
Ilhabela pouco conhecida pelos turistas que visitam a cidade. Ele traz à luz o cotidiano da comunidade que, formada inicialmente por uma maioria de imigrantes mineiros, hoje é totalmente multicultural e abriga uma parte considerável dos(as) trabalhadores(as) de Ilhabela.

Há muitas belezas neste trabalho, entre elas a relação do fotógrafo que busca retratar e acolher a comunidade com sua fotografia, ao mesmo tempo que é, também, acolhido por ela. A comunidade do Morro dos Mineiros, embora não seja mais exclusivamente formada por migrantes de Minas Gerais, representa o próprio espírito do estado que a nomeia, em especial por seu perfil hospitaleiro, mesmo em meio a uma cidade onde avançam a especulação imobiliária e o preconceito contra aqueles que chegam “de fora” em busca de melhores condições de vida, afinal, uma ilha não está fora do mundo.

As fotografias expressam não apenas o registro de moradores(as) e do cotidiano de um bairro qualquer. Ao andar pelas ruas, vielas e escadarias do Morro, entrar nas casas, ouvir histórias e criar laços de carinho e amizade com quem ali vive, Felipe Samurai se propôs a ir além de seu lugar de estrangeiro/espectador e estabeleceu vínculos afetivos que o permitiram não apenas revelar a intimidade dessa comunidade, mas, em certa medida, pertencer a ela.

Em tempos de crises migratórias e de avanço dos preconceitos com aquele que representa o “outro”, o diferente, o retrato poético que Felipe Samurai faz da periferia de Ilhabela não tem como objetivo mascarar as tristezas e dificuldades daqueles que comumente encontram-se à margem; em lugar disso, as imagens revelam como, apesar de tais dificuldades, a formação multicultural da comunidade a faz um local acolhedor e cheio de esperança em outras formas
possíveis de relações humanas.


Débora Bergamini
Educadora e pesquisadora

FELIPE SAMURAI – O RETRATO DA COMUNIDADE (1)
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Three years ago, Felipe Samurai made a life changing decision. He left his life in the

countryside to live in the city of Ilhabela, at the coast of São Paulo. Like a “foreigner” in a

distant land, since his arrival, he was charmed by the Morro dos Mineiros community. There

have been so many walks throughout the alleys and stairways, talks, stories, and the coffee

aroma. Usually, those who come to Ilhabela have the sight focused on the sea and the

amazing natural environment, but the beauty that Felipe’s eyes found for this project isn’t

only the unmistakable green and blue.

The work accomplished by the photographer on The portrait of the community reveals an

Ilhabela that is unknown to most of its tourists. It brings light on the daily life of the community,

which begins with a majority of immigrants from Minas Gerais, and today it is completely

multicultural and home to an expressive part of Ilhabela’s working population.

There are so many beauties in this work, and among them is the photographer

relationship that aims to portray and shelter the community with his photography at the

same time that he is also sheltered by it. The Morro dos Mineiros community, although not

exclusively formed by Minas Gerais migrants anymore, represents the spirit of the state which

it is named after, especially because of its welcoming way of living, even in a city where the

real estate speculation and the prejudice against those who are “outsiders” are increasing.

After all, an island isn’t separated from the world.

The pictures show not only the register of the inhabitants and the daily living of a random

neighborhood. By walking through the streets, alleys and stairways of the Morro, going into

the houses, listening to the stories, and creating ties of friendship and tenderness with

the people who live there, Felipe Samurai went beyond his foreigner/spectator place and

established emotional bonds that allowed him, not only to reveal this community intimacy

but, at some point, to be a part of it.

In these times of migratory crisis and the advance of the prejudice against everything

and everyone that is different, “the other one”, the poetic portrait that Felipe Samurai takes

of the ghetto of Ilhabela doesn’t wish to mask the sadness and challenges of those who

often live on the outskirts; but instead, the images reveal how, despite these difficulties, the

multicultural formation of the community makes it a harboring place full of hope in all the

other possible human relationships.

 

Débora Bergamini

Historian and educator

 

*João Guimarães Rosa (Cordisburgo, June 27th, 1908 – Rio de Janeiro, November 19th, 1967), was

a Brazilian novelist, short story writer, and diplomat. He wrote Grande Sertão: Veredas (known in English

as The Devil to Pay in the Backlands), a revolutionary text for its blend of archaic and colloquial prose

and frequent use of neologisms, taken inspiration from the spoken language of the Brazilian backlands.

(https://en.wikipedia.org/wiki/João_Guimarães_Rosa)

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